A Dança das borboletas

Publicação: 9 de julho de 2010

A cidade estava tranquila como sempre é aos domingos. Entenda-se aqui tranquila como “sem engarrafamento”. Mesmo o mais desavisado observador conseguirá perceber que tudo está igual, tirando, é claro, o engarrafamento. Os outodoors continuam lá, as pixações, as bicicletas, os motoqueiros “ligeirinhos”, os botecos, as lojas, os mendigos. Está tudo do mesmo jeito de sempre. No entanto, não está.

Á duas semanas instalaram aquele que promete ser a salvação da cidade: o temporizador. Foram colocadas torres ao redor de todo o perímetro urbano. Discretas, mas estão lá; emitindo ondas eletromagnéticas. Sua função é bem simples: afastar toda possível frente fria perigosa da cidade, impedindo enchentes.

É uma tecnologia que já vinha sendo desenvolvida nos EUA, desde o furacão Katrina. Adotaram o sistema nessa cidade graças aos estragos das últimas enchentes. A cidade demorou quase um ano para se recuperar. Todos ficaram traumatizados de certo modo com o ocorrido. Mesmo com a promessa de bom tempo e nenhuma enchente a população ainda anda desconfiada. Mesmo obtendo sucesso nas cidades do Sul do EUA, todos estão meio céticos quanto ao seu poder, até o governo. Desconfiança compreensível, de fato, até típica de um povo que cisma muito fácil com a modernidade, mas depois de um tempo já se alimenta dela.

O fato é que até agora não ocorreu nenhum temporal daqueles. Na realidade, esse mês de outubro está muito seco até, nenhuma chuvinha. Que eu saiba o propósito do temporizador não é expulsar as chuvas, mas só os grandes temporais.

O sol está implacável, como sempre. Os carros continuam passando nas ruas. Tudo normal para um fim de semana; nada explodiu, não brotou um tentáculo em ninguém. Parece que o temporizador nem existe. No primeiro final de semana todos estavam apreensíveis, a cidade estava meio tensa. Mas agora, tudo tranquilo. Tranquilo demais, chega a dar tédio, o tédio de sempre, o tédio dos domingos.

Uma borboleta pousa no parapeito da janela. Azul, não pára de bater as asas. Outra borboleta. Três, quatro, seis borboletas. Milhares de borboletas! Parece que jogaram toneladas de papel picado sobre a cidade. Um enxame de borboletas chegando pela avenida, debruçando pela janela dá pra ver que elas vem do interior, pelo menos a maioria.

Há alguns dias eu percebi que estava vendo borboletas pela cidade, mas parece que de repente elas decidiram invadir a cidade.Elas se espalham pelas ruas. A maioria fica voando pelos prédios. Várias entraram pela janela. Tive que fechar imediatamente todas as janelas da casa. Elas entraram e ficaram dançando sobre a estante, ao redor da lâmpada – mesmo ela estando apagada. Depois foram caindo no chão, agonizando-se. Tudo aquilo era completamente surreal. Logo o chão do apartamento estava coberto de borboletas.

Não foi só o chão do apartamento que ficou coberto delas, as ruas da cidade também. Mesmo com muitas ainda voando freneticamente pelo céu, as ruas estavam cheias de asinhas batendo, desorientadas, formando um tapete vivo um pouco macabro.

Ninguém entendeu nada. Depois de duas horas não haviam mais borboletas dançando no céu, nas casas e lojas que invadiram. Tirando uma ou outra ainda agonizando, todas estavam estateladas no chão. As pessoas saiam na rua, olhavam para cima, procurando outra nuvem de borboletas loucas. Um senhor empurrava com sua vassoura pra fora de sua varanda um volumoso cardume desses insetinhos. Alguns curiosos examinavam seus pequenos corpos, tentando entender o que tinha acontecido, procurando pelo menos uma pista. Era borboletas de todo tipo, de todas as cores, a cor predominante no entanto era o rosa. Olhar as ruas era como olhar o solo coberto pelas flores de jambo. Seria muito bonito se não fosse macabro.

Depois de dois dias saiu a nota oficial: mudança no clima, o aquecimento global estava interferindo na orientação migratória das borboletas. O fato, na verdade, é que as ondas do temporizador não afastam só tempestades como atraem borboletas. Aquele enxame monstruoso de borboletas foi chamado para a cidade, e depois de uma viagem tão longa, exaustas e desorientadas, morreriam todas elas aqui, num triste espetáculo. Não demorou muito para associarem a dança das borboletas com o temporizador. Muitos protestos foram feitos no decorrer da semana, mas com o tempo eles foram diminuindo. Quando o chefe do programa disse que a única solução seria desligar o temporizador e deixar a cidade livre para as chuvas de novo, a maioria da população concordou que borboletas não valiam tanto. Hoje, “danças de borboletas” são comuns, já aconteceram cinco, e cada vez menos enxames aparecem. Esses mini-massacres não espantam mais ninguém, só aporrinham. Eu mesmo maldizo esses insetinhos quando interditam as avenidas e me atrasando para o trabalho por causa de enxurradas de borboletas. A verdade é que esse é o preço da segurança. A “dança das borboletas” é um efeito colateral para se construir uma vida urbana estável, sabe? Mas ás vezes lamento isso. O mundo ficou mais seguro, mas também menos colorido.


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2 Respostas para
     “A Dança das borboletas”

  • telepatia disse: 9 de julho de 2010

    Curti seus contos, Vinicius. Eles são brutos na técnica, um tanto imperfeitos na forma mas estão vivos, sente-se que há vida para dentro deles. Preparando alguma narrativa mais longa? (não que todo mundo tenha que escrever uma novela ou romance, mas uma narrativa longe tem outro gosto, you know) Abs :)

  • Vinicius Alves do Amaral disse: 9 de julho de 2010

    Obrigado pela crítica e pelo incentivo á escrever um romance. Eu já tenho projetos sim sobre algo mais longo, mas devido á falta de tempo não consegui ainda finalizar. E falando nisso, parabéns pelo seu livro, espero mais notícias sobre o dr. Isaías. abraços

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